Na Divina Comedia, poema publicado em 1304 por Dante Alighieri (1265-1321), em seu canto III, logo quando Dante, guiado por Virgílio, chega as portas do submundo, entre outras frases ele lê algo bem perturbador: “Deixais toda a esperança, vós que entrais”

A entrada do submundo – Inferno – Canto III (Litogravura de Gustave Doré)

                Dante então pergunta a seu guia a respeito dessa frase e Virgílio logo o responde que, em resumo, ele não deveria se preocupar pois os que já morreram e estão no inferno não tem mais o livre arbítrio, mas que ele ainda estava vivo e não tinha com o que se preocupar. Ok legal, mas o que isso te a haver com testes de software e processos de qualidade? O que uma frase em um poema escrito a mais de 700 anos sobre o inferno, o purgatório e o paraíso têm de similaridade com testes de qualidade do nosso glorioso século 21? Bem vamos chegar lá:

                Quando se é estabelecido um processo de qualidade dentro de um projeto de criação de um novo sistema, de uma nova funcionalidade ou algo análogo, existe, logo no inicio do projeto ( ou pelo menos assim o deveria ser) todo um processo de Kick-off onde são definidos os players e suas matrizes de responsabilidade e, com isso, certamente, onde são traçados de forma bem clara os limites de atuação de cada um destes players dentro de sua respectiva responsabilidade. Isso tudo é muito bonito e, no papel, funciona como um relógio, mas ai vem os “fatores de complicação” tais como o famoso “top Down”, os “interesses pessoais de gestão” e até os também famosos “donos de sistema” que são geralmente colaboradores que estão a muito tempo na empresa e sabem de tudo a respeito do referido processo ou sistema e estão, dentro de um processo de governança inexistente ou falho, resolvem e iniciam, as vezes até com a anuência superior, a desenvolver a referida solução sem envolver nada e ninguém. – “Em tal dia está pronto” – diz ele.

                Porém, entretanto, essa mesma corporação resolve ou implementar, ou mesmo evoluir os processos de qualidade dentro da empresa porque existe sim uma necessidade do negócio e do mercado por sistemas cada vez mais eficientes, e é muito salutar quando uma corporação entende que esses processos precisam evoluir e que os testes de sistema, em todos os seus níveis são peça chave para isso. Mas ai a coisa vai para o brejo quando as variáveis acima citadas entram junto a um processo de QA, onde a alta gestão, sem saber o que precisa ser feito, já da a data de termino “top down”, e os donos de sistema falam que é só um pequeno ajuste, também sem saber, mas agora com os intrépidos analistas de testes no meio de toda essa equação. Imagina para que lado a balança vai pesar? Para um grupo de testes de sistema que “só vai estar lá para ficar apontando o dedo e fazer o desenvolvedor perder tempo” ou para o dono do sistema, que é magnânimo e que está alinhado com a alta gestão e seus objetivos específicos???…………….. Pois é…….

                É exatamente ai onde faço o paralelo com a Divina comedia e é onde a equipe de testes perde seu livre arbítrio e entra num inferno de ter que ser guiada não por um Virgílio, que são suas historias devidamente escritas com base em documentações funcionais inclusive de áreas de negócios, e sim “morrendo” e tendo que ceder aos “processos” daqueles castigadores que vão falar para você somente testar oque eles querem porque “assim não perde tempo”

                Para que um processo de QA possa ser feito da forma correta, a equipe de testes, além de toda a questão técnica envolvida como histórias de testes, documentações e demos funcionais, além de um plano de comunicação adequado, deve ter também sua SOBERANIA preservada, isto é, poder avaliar o que é necessário, seguindo as boas práticas estabelecidas de mercado, bem como junto as regras de Compliance da própria empresa, que podem não ser usadas, mas com certeza existem, principalmente em empresas multinacionais e quem tem capital aberto por exemplo. É obvio que existem exceções a isso pois sempre vão existir exceções que o mercado vai pedir, mas eles têm que continuar sendo isso, exceções, e não algo que se torne uma regra ou uma “má pratica” como eu poderia chamar aqui.

                E nesse momento, quando a equipe de teste perde a soberania no que testar, mesmo que isso seja direcionado pelo próprio negócio, em função de vontades pessoais e caprichos de um ou outro, o investimento no processo de qualidade perde o sentido e, lá na frente, irá se tornar um custo, cujo aumento é exponencial pois os bugs irão se multiplicar exponencialmente. E ai a qualidade está morta e o QA viverá seu inferno até que sua atuação seja tolhida e cortada de vez, muito antes do previsto, e muito antes do sistema ou funcionalidade está realmente apto a passar para os próximos níveis, até sua chegada a produção.

                Portanto, se não há certa soberania da equipe de QA, os testes darão o resultado que alguns querem, mas não será o resultado correto ou ideal. E nesse ponto, Virgílio já jogou a toalha e Dante já está queimando no fogo do inferno sem esperança alguma ou Livre arbítrio para tentar ao menos sair da chamas.